quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

"O Natal anuncia que a vida é uma viagem, não só porque estaríamos em trânsito para outro lugar onde seremos recompensados ou punidos para sempre, mas porque somos todos, como o recém nascido da festa, viajantes: ninguém vale pela sua ascêndencia, pelo lugar onde nasceu ou pela tradição a qual ele pertence, mas cada um ...vale pelo que ele conseguirá fazer com sua vida."

Contardo Calligaris

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens? passa telegramas?)
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.

Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de Janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.


Carlos Drummond de Andrade


quinta-feira, 26 de novembro de 2009



“O branco deve muito de sua elegância às garças.”

Manoel de Barros

foto Anne de Graaf

segunda-feira, 16 de novembro de 2009


"Gosto imensamente destes grandes silêncios, porque então ouço-me a mim mesmo, e vivo mais em cinco minutos de solidão do que em 20 horas de bulício."
(Histórias da Meia-Noite - Machado de Assis)

terça-feira, 10 de novembro de 2009


tem os que passam

e tudo se passa
com passos já passados

tem os que partem
da pedra ao vidro
deixam tudo partido

e tem, ainda bem,
os que deixam
a vaga impressão
de ter ficado

Alice Ruiz

terça-feira, 3 de novembro de 2009

De Momento em Momento



Por quê este caminho e não o outro? Aonde leva para nos atrair desta forma? Que ávores e amigos estão vivos atrás do horizonte dessas pedras, no distante milagre do calor? Viemos até aqui porque onde estávamos não era mais possível . Éramos atormentados a ponto de ser escravos. Em nossos dias o mundo é hostil aos Transparentes. Mais uma vez foi preciso partir... e este caminho, semelhante a um longo esqueleto, nos conduziu a um país que só tinha o próprio sopro para escalar o futuro. Como mostrar sem trair as coisas simples desenhadas entre o crepúsculo e o céu? Pela virtude da vida obstinada, no giro do Tempo artista, entre a morte e a beleza.
René Char, “O nu perdido e outros poemas”

Parecia um pássaro

Parecia um pássaro, um frêmito

de folha, uma líbélula,

uma coisa evanescente

e volátil:

não era nada, um pensamento / de amor? /

que se ensaiou na sombra

e desapareceu qual rã.

Marly de Oliveira

quinta-feira, 29 de outubro de 2009



Chega mais perto e contempla as palavras
Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta sem interesse pela resposta pobre ou terrível que lhe deres Trouxeste a chave?
Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Saudades!


Foi uma ilusão
Uma insensatez
Há que pôr o chão
Nos pés

Era como um trem
Que anda sem passar
Era um tempo sem
Lugar

Era uma ilusão
No interior
De uma outra ilusão
Maior

Tudo é uma ilusão
Os que estão aqui
Esses não estão
Em si

Do universo, o além
Faunos ou mortais
Vão restar mais nem
Sinais

Tudo o que se vê
É o sonho de algum
Pobre sonhador
Todas as estrelas
Todas as misérias
Todos os desejos
Tudo o que se viu
tudo o que se foi

Última ilusão
Amanhece já
Vai-se abrir o chão
Quiçá

A ilusão se esvai
É uma cena só
E a cortina cai
Sem dó

Vai cessar o som
A sessão já foi
Despertar é bom
Mas dói

Pedras vão rolar
Choram serviçais
Vão se espatifar
Vitrais
Tomba o refletor
Ardem camarins
Cai no bastidor
A atriz

Descarrila o trem
O pilar cedeu
Vai morrer meu bem
E eu

Num jardim fugaz
De espirais sem fim
Eu corria atrás
De mim

O homem se distrai
Dorme em boa fé
Sua sombra sai
A pé

Mas
Foi uma ilusão
Uma insensatez
Há que pôr o chão
Nos pés
Chico Buarque -Edu Lobo







sábado, 17 de outubro de 2009



A vida moderna é acelerada demais.
Não permite um sentimento tão ardente... tão terno... -Não há tempo para esperar... -Nem para amar. Mergulha?


foto: Nikki Jane

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Saudades


Saudades! Sim.. talvez.. e por que não?...
Se o sonho foi tão alto e forte
Que pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!

Esquecer! Para quê?... Ah, como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como o pão.

Quantas vezes, Amor, já te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar
Mais decididamente me lembrar de ti!

E quem dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais saudade andasse presa a mim!

Florbela Espanca, in "Livro de Sóror Saudade"

terça-feira, 15 de setembro de 2009

EU NÃO SOU EU



Eu não sou eu.
Sou este
que vai ao meu lado sem eu vê-lo;
que, por vezes, vou ver,
e que, às vezes, esqueço.
O que se cala, sereno, quando falo,
o que perdoa, doce, quando odeio,
o que passeia por onde estou ausente,
o que ficará de pé quando eu morrer.

Juan Ramón Jiménez