quinta-feira, 29 de outubro de 2009



Chega mais perto e contempla as palavras
Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta sem interesse pela resposta pobre ou terrível que lhe deres Trouxeste a chave?
Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Saudades!


Foi uma ilusão
Uma insensatez
Há que pôr o chão
Nos pés

Era como um trem
Que anda sem passar
Era um tempo sem
Lugar

Era uma ilusão
No interior
De uma outra ilusão
Maior

Tudo é uma ilusão
Os que estão aqui
Esses não estão
Em si

Do universo, o além
Faunos ou mortais
Vão restar mais nem
Sinais

Tudo o que se vê
É o sonho de algum
Pobre sonhador
Todas as estrelas
Todas as misérias
Todos os desejos
Tudo o que se viu
tudo o que se foi

Última ilusão
Amanhece já
Vai-se abrir o chão
Quiçá

A ilusão se esvai
É uma cena só
E a cortina cai
Sem dó

Vai cessar o som
A sessão já foi
Despertar é bom
Mas dói

Pedras vão rolar
Choram serviçais
Vão se espatifar
Vitrais
Tomba o refletor
Ardem camarins
Cai no bastidor
A atriz

Descarrila o trem
O pilar cedeu
Vai morrer meu bem
E eu

Num jardim fugaz
De espirais sem fim
Eu corria atrás
De mim

O homem se distrai
Dorme em boa fé
Sua sombra sai
A pé

Mas
Foi uma ilusão
Uma insensatez
Há que pôr o chão
Nos pés
Chico Buarque -Edu Lobo







sábado, 17 de outubro de 2009



A vida moderna é acelerada demais.
Não permite um sentimento tão ardente... tão terno... -Não há tempo para esperar... -Nem para amar. Mergulha?


foto: Nikki Jane

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Saudades


Saudades! Sim.. talvez.. e por que não?...
Se o sonho foi tão alto e forte
Que pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!

Esquecer! Para quê?... Ah, como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como o pão.

Quantas vezes, Amor, já te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar
Mais decididamente me lembrar de ti!

E quem dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais saudade andasse presa a mim!

Florbela Espanca, in "Livro de Sóror Saudade"

terça-feira, 15 de setembro de 2009

EU NÃO SOU EU



Eu não sou eu.
Sou este
que vai ao meu lado sem eu vê-lo;
que, por vezes, vou ver,
e que, às vezes, esqueço.
O que se cala, sereno, quando falo,
o que perdoa, doce, quando odeio,
o que passeia por onde estou ausente,
o que ficará de pé quando eu morrer.

Juan Ramón Jiménez

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

quinta-feira, 3 de setembro de 2009



"Vocês ficariam horrorizados se soubessem as coisas em que acredito. Esse horror só seria maior se um dia percebessem as coisas em que vocês acreditam... em seu cetisimo cínico."
Duda Teixeira

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Nada mais que a paixão



Não espere de mim nada mais que a paixão

Não espere nada de mais do meu coração
Que bate, rebate e grita
Geme, chora e se agita
Sambando nas cordas bambas de uma viola vadia
Não espere encontrar numa canção
Nada além de um sonho, nada além de uma ilusão
Talvez, quem sabe, a verdade
A infinita vontade de arrancar
De dentro da noite a barra clara do dia
Egberto Gismonti & João Carlos Pádua

terça-feira, 25 de agosto de 2009


foto nuno veiga
O sol beija pra todo lado nem sabe quenta beijando.
Mas nessa manha de sábado quem está sendo beijado sabe,
e está gostando.

Duda Teixeira

sexta-feira, 21 de agosto de 2009


Águas belas, belas águas
almas calmas,alvas claras
ondas leves, noites secas
vasto ecoa pela areia

som de passos de sereias

fazem traços, tecem teias

onde me enrosco e passo

onde me traço leia

vagas viagens pouso
vôos em pura cegueira

planos enormes plenos

ventos e mapas de queira.

Duda Teixeira

Eis porque já não há ninguém para atravessar o deserto.”


“Todos têm terror do silêncio e da solidão e vivem a bombardear-se de telefonemas, mensagens escritas, mails, e contactos no Facebook e nas redes sociais da Net, onde se oferecem como amigos a quem nunca viram na vida. Em vez do silêncio, falam sem cessar; em vez de se encontrarem, contactam-se, para não perder tempo; em vez de se descobrirem, expõem-se logo por inteiro: fotografias deles e dos filhos, das férias na neve e das festas de amigos em casa, a biografia das suas vidas, com amores antigos e actuais. E todos são bonitos, jovens, divertidos, ‘leves’, disponíveis, sensíveis e interessantes. E por isso é que vivem esta estranha vida: porque, muito embora julguem poder ter o mundo aos pés, não aguentam nem um dia de solidão. Eis porque já não há ninguém para atravessar o deserto. Ninguém capaz de enfrentar toda aquela solidão.”

(Miguel Sousa Tavares em “No teu deserto”). Para ilustrar o post, trabalho de Antony Gormley.

Via Ricardo Lombardi - Desculpe a Poeira

quinta-feira, 13 de agosto de 2009