quinta-feira, 27 de maio de 2010

Personagem



Teu nome é quase indiferente
e nem teu rosto já me inquieta.
A arte de amar é exactamente
a de se ser poeta.

Para pensar em ti, me basta
o próprio amor que por ti sinto:
és a ideia, serena e casta,
nutrida do enigma do instinto.

O lugar da tua presença
é um deserto, entre variedades:
mas nesse deserto é que pensa
o olhar de todas as saudades.

Meus sonhos viajam rumos tristes
e, no seu profundo universo,
tu, sem forma e sem nome, existes,
silêncio, obscuro, disperso.

Teu corpo, e teu rosto, e teu nome,
teu coração, tua existência,
tudo - o espaço evita e consome:
e eu só conheço a tua ausência.

Eu só conheço o que não vejo.
E, nesse abismo do meu sonho,
alheia a todo outro desejo,
me decomponho e recomponho.

Cecília Meireles, in 'Viagem'

quinta-feira, 6 de maio de 2010




"Imagine um espaço negro, condição para o desconhecido, e o risco do poema abre um atalho sugerido - círculo de giz em suspenso. O branco da linha, conduzido a ritmo, corre simultâneo ao dizer dos versos."
Fernando Paixão

sábado, 1 de maio de 2010

Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila. Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.

A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos. Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo. Deles não quero resposta, quero meu avesso. Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.

Para isso, só sendo louco! Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.

Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta. Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria. Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto. Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade. Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.

Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça. Não quero amigos adultos nem chatos. Quero-os metade infância e outra metade velhice! Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa. Tenho amigos para saber quem eu sou. Pois ao vê-los loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que a "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril.

Oscar Wilde

quinta-feira, 22 de abril de 2010

O Lutador



Palavra, palavra
(digo exasperado) , se me desafias, aceito o combate. Quisera possuir-te neste descampado, sem roteiro de unha ou marca de dente nessa pele clara. Preferes o amor de uma posse impura e que venha o gozo da maior tortura.
Carlos Drummond de Andrade
wordle.net

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Não aceiteis o que é de hábito como coisa natural,
pois em tempo de desordem sangrenta,
de confusão organizada,
de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada,
nada deve parecer natural
nada deve parecer impossível de mudar.

Bertolt Brecht

sábado, 3 de abril de 2010

Permanecer




É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.


Eugénio de Andrade, aliás José Fontinhas,

quinta-feira, 11 de março de 2010



dias e dias
espio palavras
persigo letras

com sorte
saco mais rápido
pego todas distraídas

tiro as que riem
as que conversam

as outras
vadiam

Alice Ruiz

sábado, 6 de março de 2010


Se eu quisese que todo mundo ficasse triste, contaria ,que os dois amigos, presos as suas obrigações, não se reviram mais.De fato é o que acontece na maioria das vezes. A gente reencontra um amigo, fica super contente,faz planos.E depois a gente não se vê mais. Porque não temos tempo,porque moramos longe um do outro..., porque temos um monte de trabalho.Por mil outros motivos.Mas Marcelino e Renê se reviram.

Do livro “Marcelino Pedregulho”, de Sempé (Editora Cosac Naify)

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010


Tem lugares que me lembram

minha vida por onde andei
As histórias , os caminhos
O destino que mudei
Cenas do meu filme em branco e preto
Que o vento levou e o tempo traz
Entre todos os amores e amigos
De você que lembro mais...

Rita Lee, Minha vida
(versão de In my life, John Lennon e Paul McCartney)

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010




Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar A criar confusões e prosódias Que encurtem dores E furtem cores como o camaleão
Caetano Veloso "Língua"

Wordle

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Brinde


...Que a noite mal começou
A lua ainda é menina
E um gole de bom humor
Faz cócegas na auto estima...
Jean Garfunkel

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Simplesmente Fernando...

Poema do amigo aprendiz
Quero ser o teu amigo. Nem demais e nem de menos.
Nem tão longe e nem tão perto.

Na medida mais precisa que eu puder.
Mas amar-te sem medida e ficar na tua vida,
Da maneira mais discreta que eu souber.
Sem tirar-te a liberdade, sem jamais te sufocar.
Sem forçar tua vontade.
Sem falar, quando for hora de calar.
E sem calar, quando for hora de falar.
Nem ausente, nem presente por demais.
Simplesmente, calmamente, ser-te paz.
É bonito ser amigo, mas confesso é tão difícil aprender!
E por isso eu te suplico paciência.
Vou encher este teu rosto de lembranças,
Dá-me tempo, de acertar nossas distâncias...
Fernando Pessoa

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010






"Escultura a descoberta da forma, do silêncio, onde a luz guarda a sombra e comove.
"
Amilcar de Castro